julho 05, 2007

Poesia

Se me permite, houve um tempo em que se negava que o Homem estivesse em estado mórbido com hidratos no fígado. Não é idêntica a esta, a desconfortável sensação dum queixo agudo sobre um olho que atravessa a garganta. É esse olho que hoje preenche o conceito de Liberdade, quero dizer: o conceito, se há algum válido, de Poesia, e não Liberdade tal como nos é definida pelos racionalistas como possibilidade de Escolha através da Razão, mas como explosão acontecida no mais profundo do Ser. Síntese que corporiza espontaneamente o poema num acto tradicionalmente chamado involuntário. É ali o Banco da Poesia - energias de instintos, previsões, tendências, sentimentos, recalques, imagens remotas ou recentes. E, em vários momentos, o Poeta reconhece nas conchas, nas escamas e nas fibras vegetais essa matéria especificamente subversiva que a Cor do Futuro.

A Intervenção Surrealista, Mário Cesariny


junho 27, 2007

junho 22, 2007

Stolen kisses

Stolen Kiss

Um cleptomaníaco feliz!


Jean-Honoré Fragonard, Baiser à la dérobée


junho 18, 2007

Melancolia

Já repararam como a nossa disposição depende do clima?
Todos os seres vivos funcionam como uma espécie de barómetros e variam na medida em que o clima varia. Qualquer pescador sabe que os peixes, por exemplo, se comportam de maneiras diferentes, conforme as condições climatéricas, havendo até alguns, mais conhecedores, que sabem como certo tipo de alterações provoca mudanças no comportamento de certas espécies. Alguns de vós certamente sabem como, naqueles pesados minutos que antecedem uma tempestade, as enguias ficam furiosamente agitadas e vorazes e as moscas picam de forma mais insistente. Uma das explicações para este comportamento está no facto de as alterações na pressão e na electricidade atmosféricas afectarem directamente o processo químico de cada corpo, com tais alterações a serem experimentadas, devido a essa reacção química, como alterações no campo do sentir. Se imaginarem o vosso consciente como um locutor de rádio e o corpo como as peças e válvulas do aparelho, então o clima será algo que se entretém a manipular os seus botões.
Mas que têm estas coisas a ver com a poesia?

O Fazer da Poesia, Ted Hughes


junho 01, 2007

Festival


Jimmy Dean

A agência Magnum está a comemorar sessenta anos, e fá-lo com fotos e com filmes.


maio 07, 2007

Insular

Havia um homem que amava ilhas, Nascera numa, mas não lhe agradava por ter gente demais. Queria uma ilha só para ele: não necessariamente para lá ir viver sozinho, mas para fazer dela um mundo seu.
Uma ilha grande demais não é melhor do que um continente. Para ser sentida como tal, uma ilha tem que ser, de facto, bastante pequena - e este conto mostra como tem que ser minúscula, para podermos ter a sensação de que está cheia da nossa personalidade.
Ora, as coisas proporcionaram-se de modo a este apaixonado por ilhas vir, realmente, a comprar uma ilha quando chegou aos seus trinta e cinco anos. Não a possuía em termos absolutos, mas comprara-a a um prazo de noventa e nove anos o que, pela parte que toca a um homem e a uma ilha, vale uma eternidade. É que, se se é como Abrãao e se quer que os descendentes se multipliquem como as areias da beira-mar, então não se escolhe a ilha para cenário da multiplicação. Em breve estaria super-populada, apinhada de gente a viver em condições miseráveis. E isso é uma perspectiva horrível, para quem ama a ilha pela sua insularidade. Não, uma ilha é um ninho com lugar para um ovo, e um só. Este ovo é o próprio ilhéu.

D. H. Lawrence


maio 03, 2007

Precipitação

Uma campanha perfeita.


abril 30, 2007

Abominável

Como todo o indivíduo de grande mobilidade mental, tenho um amor orgânico e fatal à fixação. Abomino a vida nova e o lugar desconhecido.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego


abril 16, 2007

Make a Wish

[...] desejar e poder desejar, desejar de forma descarada, aproveitar resolutamente as oportunidades, ambicionar insaciavelmente é uma genialidade, tão grande como qualquer outra. É possível que não se acredite, mas em cada geração não nascem talvez dez jovens que tenham esta coragem cega, esta ânsia de acometer o infinito.

Kierkegaard


abril 12, 2007

Serviçais

- A atitude do artista conta mais, para si, do que a obra de arte?
- Sim. O indivíduo, como tal, como cabeça, se quiser, interessa-me mais do que aquilo que ele faz, porque notei que a maior parte dos artistas não faz mais do que se repetir. Por outro lado, isto é forçoso, não se pode inventar sempre. Só que eles têm esse velho hábito que os leva a fazer, por exemplo, uma pintura por mês. Tudo depende da velocidade de trabalho; eles pensam que devem à sociedade o quadro mensal ou anual.

Marcel Duchamp, O Engenheiro do Tempo Perdido


abril 09, 2007

Bom nome

Era pouco provável encontrar em qualquer lado pessoa que vivesse tão fundo o seu emprego. Dizer que servia com zelo é dizer pouco - não, servia com amor. Naquilo, naquela reprodução de cópias, via ele o seu mundo, variado e deleitoso. Uma volúpia se lhe exprimia na cara quando copiava; tinha algumas letras favoritas e, quando lhe apareciam, perdia a cabeça; ria-se baixinho, piscava o olho, mexia os lábios a ajudar, e como que era possível ler-lhe na fisionomia cada letra que a sua pena traçava. Se lje tivessem dado as recompensas correspondentes ao seu zelo, ele, para sua própria admiração, teria chegado mesmo ao grau de conselheiro de Estado; apenas ganhou, porém, como se exprimiam os brincalhões dos seus colegas, uma fivela na botoeira e hemorróidas abaixo dos rins.

Nikolai Gogol, O Capote


A propósito deste filme delicioso.


abril 05, 2007

Subjectiva

Desta vez, nem foi preciso Photoshop.


março 22, 2007

O Prazer da Síntese

Era uma vez um Imperador que gostava muito de borboletas. Um dia mandou chamar o pintor mais conhecido e admirado do Império e ordenou-lhe que pintasse uma borboleta. O pintor disse que para pintar necessitava de uma casa grande e confortável, que estivesse situada no lugar mais bonito do reino, alguns criados e um prazo de três anos. O Imperador concedeu os pedidos. Ao fim de três anos o Imperador mandou chamar o pintor ao palácio e quis saber se ele já tinha pintado a borboleta. O pintor pediu ao Imperador que lhe fossem concedidos mais três anos de prazo, os mesmos criados e a mesma casa. O Imperador voltou a conceder os pedidos.
Ao fim de três anos o pintor chegou novamente ao palácio e, em frente do Imperador, em alguns segundos, com traço firme e sem levantar o pincel, pintou uma borboleta, tão bonita que nunca o Império tinha visto outra igual. O Imperador, contente mas surpreendido, perguntou ao pintor para que tinham servido os seis anos se ele fora capaz de pintar a borboleta em alguns segundos. O pintor respondeu que foram seis anos de conforto e reflexão que tinham permitido a síntese, em alguns segundos, de uma multiplicidade de gestos.

Alfredo Saramago, Os Prazeres de Alfredo Saramago


março 12, 2007

Antes o Sexy Hot

Rui Zink induziu-me em erro e quando reparei que estava a ver um Big Brother, já tinha ouvido o apresentador do concurso [feio e irritante, suponho que propositadamente] dizer que Cuba Libre era uma bebida feita com Whiskey e Coca Cola, supostamente para humilhar uma loira que exibia uma cuecas brancas e muita celulite em cima de uma secretária enquanto olhava pela primeira vez, e última certamente, para uma fotografia de Fidel Castro.

Mudei de canal a tempo, até porque prefiro raparigas modestas e recatadas.


fevereiro 23, 2007

Pré-publicação

Aceitamos o convite da editora Guerra & Paz e associamo-nos à pré-publicação do capítulo XXV do romance E Deus Pegou-me pela Cintura, do meu professor de Semiótica e Filmologia Luís Carmelo.

Tudo começou com este teaser.


O dia cinzento, os eléctricos como fios de lâmina, as árvores desfolhadas e o taxista, um insecto lívido e ignorante. Guilherme trocou depois a nota de cinco euros pelos passeios descarnados em direcção ao Calvário. Os tempos desencontraram-se de vez e nada havia já a fazer: as imagens estavam em todos os jornais e passavam na televisão de hora a hora. Previra-o, é verdade; e a frieza mais óbvia que agora acompanhava Guilherme apenas provava o estado mais de premonição do que de consolação que vivera em Portalegre. Sabia-o, sempre o soubera; porventura, desde o dia 15 de Setembro, quando aquele mágico reencontro no Algarve ditou uma imensidão que não fora moldada para este mundo. Diante do gigantismo do destino, “o pobre desconfia” – pensava Guilherme, no momento em que parou em frente da esquadra e leu com atenção a placa: “4ª Divisão – Esquadra de Investigação Criminal”. Entrou serenamente no nº 7 do Largo do Calvário, dirigiu-se ao polícia de serviço, um jovem candidato a James Bond que leu em diagonal a carta registada recebida na Infante Santo. “Pois é, senhor Guilherme Moutinho, aguarde um bocadinho na sala de espera que o senhor inspector já vai recebê-lo”. “Inspector?”, repetiu Guilherme. O polícia sorriu com algum desdém, fez um gesto vago e atendeu de imediato a florista que estava em pulgas por causa de um roubo no quarteirão da frente.

O salão parecia ter sido uma enfermaria noutros tempos – as mesmas janelas largas, metalizadas e brancas; a mesma disposição de cavalaria sobre o comprido e a mesma luminosidade baça e inquietante. As paredes estavam cheias de cartazes, injunções, avisos e um calendário com uma mulher meio despida que marcava o dia de hoje: segunda-feira, dia 30/10/2006. Na porta do fundo que estava entreaberta, surgiu um sujeito alto de sobrancelhas arqueadas, lábios crispados e umas mãos pequeninas que se agitavam como salmões a subir um rio. “Rodolfo Taipas, faça o favor de entrar!” (o inspector olhou detalhadamente para o interlocutor como se já há muito o conhecesse). Guilherme sentou-se e ouviu aquele tipo de prólogo moralista que menos poderia suportar: “O tema, a pessoa de quem vou falar, as notícias de choque que estão a passar a toda a hora nos media, tudo isso me embaraça e até inibe, senhor Guilherme Moutinho. Mas eu sou um profissional, compreenderá, e tenho que agir como tal… seja em que circunstância for. É o meu trabalho”. Guilherme baixou a cabeça, não disse palavra e de-pois acenou com o peso de uma estátua africana de ébano a quem tivessem removido a história e a lenda. O sol bateu inesperadamente nas cortinas puídas da janela, o inspector Taipas continuou a esfregar as minúsculas mãos e as onze da manhã fizeram-se ouvir. Seguiu-se uma pausa breve, enquanto o dossiê de papel pardo se ia abrindo, página a página, sobre o tampo da secretária. “Senhor Guilherme Moutinho, vou ter que lhe fazer uma série de perguntas. Trata-se de um questionário preliminar, pois ainda não sabemos se alguém, “alguém graúdo” digo eu (com os dedos, Rodolfo Taipas fez o gesto das aspas), irá pegar no caso. Receio bem que sim, pelo meu simples faro, pela experiência e tendo em conta tudo o que se passou… bem, o senhor sabe. Indo directamente ao assunto (Guilherme sentiu­se subitamente bloqueado, enquanto a mente parecia circular à velocidade de um carrossel):

– Onde é que esteve no passado dia 4 de Outubro, entre as 18h30 e as 20h30?
Guilherme lembrava-se perfeitamente do dia: o dia a seguir ao rapto. Fixara-o por isso quase involuntariamente.
– Na rua da Escola Politécnica, na casa de Rute Monteiro ao Príncipe Real e, provavelmente, já no final desse período, no trajecto entre o Príncipe Real e a minha casa na Infante Santo.
– Confirma, portanto, ter estado em casa de Rute Monteiro.
– Confirmo.
– Muito bem. Esteve no quarto de dormir?
– Sim, já tinha lá dormido de 29 para 30 de Setembro, dia em que, ainda de madrugada, Rute Monteiro partiu para o Médio Oriente. No dia 4, lembro-me perfeitamente que foi no quarto que entrei em primeiro lugar, depois de ter aberto a porta.
– Pode provar que já tinha estado na casa de Rute Monteiro antes do dia 4 de Outubro?
Guilherme fez um pequeno silêncio, lembrou rostos, pessoas, datas e sentiu-se no meio de uma súbita confusão.
– Não sei. Será difícil. Rute Monteiro morreu. Talvez algum vizinho…, mas reafirmo que já lá tinha estado e que já lá tinha dormido.
– Como é que entrou na casa de Rute Monteiro e porquê?
– Ela pediu-me para regar as plantas ainda no dia 29 de Setembro, talvez já fosse dia 30, era tarde. Tivemos uma noite muito longa.
– E deu-lhe a chave nessa altura?
– Exacto.
– Vai ter de ma devolver agora (quase mecanicamente, o inspector abriu um envelope que estava sobre a secretária e Guilherme limitou-se inserir lá dentro a chave que retirara em segundos do porta-moedas). Tiveram os dois um… caso passional?
Guilherme não respondeu de imediato. Olhou o inspector de frente, baixou depois os olhos e acabou por dar às palavras o sabor de um rasto sem vida.
– Se quiser dizer por essas palavras…
– Já tinha regado as plantas entre o dia 30 de Setembro e o dia 4 de Outubro?
– Não.
– E porquê? As plantas ao fim de um dia sofrem muito com a falta de água!
– Tem razão. Foi esquecimento, desleixo, não me lembrei, não sei.
– Durante o tempo que esteve na casa de Rute Monteiro, e devo dizer-lhe que há vizinhos que testemunham a sua presença na casa no dia 4 de Outubro, e apenas nesse dia, esteve no escritório, ou só no piso de cima?
– Estive em ambos os pisos. E a minha consciência está limpíssima.
Guilherme arrependeu-se de ter pronunciado a palavra “consciência”, não era para ali chamada, mas já estava feito.
– Não é isso que está aqui em causa! Mas, já agora, por que é que foi ao escritório, se não havia lá, aparentemente, plantas nenhumas para regar?
– De facto, já lá tinha estado com a Rute e senti-me atraído pelo local onde ela trabalhava. Para mais, tinha acabado de saber do rapto. Sentia-me em estado de choque.
– Abriu o computador?
– Sim.
– E porquê?
– Queria ter notícias sobre o rapto. Queria saber a última hora.
– E que sites visitou?
– Talvez a CNN, o Sapo e algum blogue, já não me lembro bem.
– Crê que a dona da casa teria autorizado essa busca?
– Obviamente.
– Sabe que o histórico do Internet Explorer, tenho-o ali comigo (o inspector aponta para o canto da divisão), refere onze sites visitados durante o período em que o senhor Guilherme Moutinho confessa ter estado na casa de Rute Monteiro?
– Não creio que tenham sido tantos…
– O material tem sempre razão, palavra de inspector. Continuemos. Mexeu nas estantes?
– Não.
– Mexeu em algum livro, ou levou mesmo consigo algum livro?
– Não.
– Mas, olhe senhor Moutinho, há impressões digitais nas estantes, em dois livros e numa espécie de arquivo que estava na segunda prateleira do lado direito… que não coincidem nem com as da dona da casa, nem com as dos assaltantes.

Guilherme alarmou-se, repentinamente.
– Assaltantes?
– Sim, senhor Guilherme Moutinho. A casa de Rute Monteiro foi assaltada no passado dia 19 de Outubro. Temos tido um Outono muito movimentado. Repito, portanto, não mexeu nas estantes ou em livros, em nada?
A imagem de um livro e dos sublinhados veio-lhe então à cabeça.
– De facto, lembro-me agora, esta minha memória…, lem-bro-me agora de ter mexido num ou noutro livro.
– Porquê?
– Não sei. Tentei ver o que é que a Rute andava a ler.
– Não a conhecia, portanto, muito bem?

Guilherme achou a questão tão idiota quanto perspicaz. E sentiu-se estranhamente afectado.
– Não nos víamos há 30 anos. Foi um reencontro fulminante
Guilherme sentiu um verdadeiro aperto na garganta, um arrepio que o consumiu de alto a baixo, mas a frieza logo reatou a gravidade e a impassibilidade do rosto. Felizmente, o questionário aproximava-se do final.
– Para terminar… vejo que estou a cansá-lo.
– Não, de modo nenhum, senhor inspector.
– Sim, mas é de facto a última pergunta. Conhece o senhor Lourenço Matias, comerciante, proprietário de um antiquário e residente em Cascais?
– Sim. É, ou melhor, era o marido legal de Rute Monteiro.
– Marido legal… quer dizer, é o marido. É o marido e mais nada!
– Era.
“Bom, senhor Guilherme Moutinho, vamos ficar por aqui. Não sei se voltaremos a chamá-lo aqui à esquadra. Em princípio, estamos face a uma ocorrência mais ou menos normal que, sem uma relação clara de causa efeito, teria precedido um assalto sem grande importância. Delito comum, como se costuma dizer. É essa piolheira que aí anda, o senhor sabe do que falo. Mas é possível que não. Muito provavelmente, é bem possível, vai ter que provar noutro lado muito do que hoje aqui afirmou. É natural que possamos ter que ficar em contacto nos próximos tempos, não sei se me está a entender”. Guilherme interrompeu então o inspector com um sonante “Não!”. O inspector sorriu com um ar condescendente e sem grandes desdramatizações rematou: “É isso mesmo, senhor Guilherme Moutinho. As investigações que estamos agora a levar a cabo, e que são ainda preliminares, é que nos irão dizer se tudo isto não passou de um infeliz mal-entendido, ou se, pelo contrário, o senhor está mesmo metido, como diz o povo, desculpe-me, num verdadeiro molho de brócolos. Além disso, passando-se o que se passou no Líbano, ou lá onde é que foi, é mais do que normal que o Ministério Público se encarregue de pôr em movimento tudo, mas mesmo tudo, o que se relacione com a jornalista Rute Monteiro. Neste momento, ela é apenas a pessoa mais falada em todo o mundo. Está a ver, senhor Moutinho? Aqui os meus colegas (o inspector levanta-se, esfrega as minúsculas mãos e pisca o olho) dizem que o Taipas tem sempre razão!”.


janeiro 19, 2007

O Rapto

Uma jornalista portuguesa foi raptada no Líbano e está desaparecida há vários meses. As brigadas da Jihad Santa ter-se-ão esquecido que não haveria interessados em dar-lhe importância, como eventual moeda de troca.

A melhor das sortes é o que desejo à abandonada Rute Monteiro.


dezembro 20, 2006

Presépio

O primeiro xmas card não virtual que recebi foi este, de uma editora livreira. Imbatível.


dezembro 18, 2006

Bestas

É certo que falta um Jon Stewart em Portugal. Faltará à maior parte dos países, que não têm sequer um Stephen Colbert.

Mas ao menos a nós, não nos faltam políticos que fazem George W. Bush parecer um génio elegante.


dezembro 15, 2006

MEC is alive

Ver um azul do céu, essas merdas. E os dias. Começas a apreciar a vida, a respiração, acordar bem disposto, a água do banho. Enquanto antes eram só coisas adquiridas, livros que compravas, drogas que arranjavas, whiskeys que tinhas em casa. Os prazeres eram todos caçados por ti. Ias buscar este jornal, fazias a marguerita com tequila, snifavas a coca, mandavas vir da Amazon Books não sei quê. Todos os teus prazeres eram coisas que tinhas comprado. Depois do susto da morte os prazeres deixam de ser esses. Passa a ser o barulho de um carro a passar. O tique-tique. O estarmos aqui.

A verdadeira humildade é uma gratidão. No sentido do "olha lá a sorte que tive". Voltamos ao que disse lá atrás. Saber apreciar isto de estar vivo. Os objectos pequenos, o cheiro das coisas, a maneira dos gatos entrarem em casa. A riqueza do mundo, sem precisares de comprar seja o que for. Por exemplo, no outro dia descobri uma quinta, a Quinta da Ribeira, onde vendem pão embrulhado em cobertores, óptimo. Ainda não tinham apanhado as laranjas, porque é muito cedo. Mas estava lá o pomar. E eu atrevi-me e arranquei duas laranjas, mesmo quando ia a passar um padre que olhou para o chão, como quem perdoa, porque aquilo pertence ao seminário ou ao patriarcado, parece uma coisa do século XIX. Roubei essas laranjas, as primeiras laranjas do ano, sacadas por mim, com as folhas e tudo, mais a rama. Estive uma hora e meia à volta das laranjas, com a Maria João. Partimos os gomos e revisitámos todas as maneiras de comer laranjas. O prazer, o cheiro, aquilo tudo esmigalhado, o óleo a marcar o nossos braços. A comparação com outras laranjas. É uma coisa que só se pode apreciar aos cinquenta anos.. Se tu fizeres isso agora, não chegas lá da mesma maneira. Falta-te a idade.

Miguel Esteves Cardoso, in Diário de Notícias

PS: O que é preciso fazer para que a RTP repita O Portugal de... MEC?


dezembro 13, 2006

Keret

O primeiro presentinho de Natal durou menos que o embrulho.

São dezenas de contos de um jovem escritor israelita de quem só tinha ouvido falar por alto. As estórias são tão divertidas que queria dá-lo a toda a gente, neste Natal. Infelizmente, corridas as livrarias mais à mão, nem um exemplar disponível. Bem me avisou quem mo ofereceu, que queria que lho emprestasse assim que possível.

Desde As Formigas, que não me passava uma coisa tão original pelo nariz.


dezembro 08, 2006

Ocasião [2]



dezembro 07, 2006

Ocasião



novembro 28, 2006

Pelo Maxime


Dean Martini

O Maxime está em perigo iminente. As promessas de reabertura não se cumpriram, apesar do Maxime ter respeitado a palavra, ter instalado um limitador de ruído e contratado arquitectos para licenciar obras de 1969.

Quem serão os génios das máscaras cinzentas? Algumas possibilidades se configuram, mas há ainda muito trabalho a fazer, seguno os nossos detectives. detectam-se ramificações entre algumas entidades pardas: O Dr. Fu Manchu? Extra-Terrestres? O Hotel Plaza? A Câmara de Lisboa? A Câmara do Porto? O Dr. Alberto João Jardim? s interesses imobiliários? O sapo Cocas?

Adivinha se quiseres...


novembro 27, 2006

In Memoriam: Gedeão e Cesariny

voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

 

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Só agora é possível assinalar o desaparecimento físico de Mário Cesariny e de Rómulo de Carvalho. Aqui fica uma singela homenagem, os poemas que mais me dizem de cada um.


novembro 22, 2006

Eclíptica Genésica

Não me digas que a paz não te merece um sacrifício, ou dois?!


outubro 21, 2006

Pensa, Rosna, Estica, Corta


Tiago Cutileiro

Vou espreitar, com as expectativas elevadas.


outubro 19, 2006

Camara Invisível

Teresa e Lena são duas lésbicas que tentaram casar, desafiando a lei. Mas o mediatismo do caso trouxe-lhes ainda mais dificuldades e discriminação. Estas duas mães - e duas filhas - são uma família de facto, mas fora da lei. Para elas, casa, escola e trabalho podem tornar-se grandes problemas.

O documentário Fora da Lei estreia este dia 21, pelas 18h30, na Culturgest. Aposta do Festival Doc Lisboa.


agosto 15, 2006

Topless and Smoke


Vai um mergulho?

Two Women
W. H. B Silverman


agosto 03, 2006

A Animação dos Dias

Em forma de publicidade ao Motorola E1000, embora nem se perceba.


julho 20, 2006

Acrílico

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 I guess we'll never know what's written down there...

Untitled
Markus Muntean & Adi Rosenblum
[acrylic, cut out paper and pencil on paper, 2002]


julho 19, 2006

Aumentar o Calor


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Mockup Ads

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julho 17, 2006

Post[a] It[o]


Encomendar este livro para oferecer e pedir emprestado depois.
Nota: é uma compilação de artigos destes senhores.


julho 12, 2006

O Estado da Nação

Pela primeira vez na História da democracia portuguesa - que eu me lembre que sou pouco mais velho que ela - foram vistos os deputados da Nação e os membros do Governo da mesma, a suar pelas estopinhas, a abanar folhas de papel e passar lenços pela fronte, a afastar o nó da gravata do pescoço e a soprar para cima, em todas as bancadas do parlamento.

Foi por um triz, que a sessão legislativa está a acabar e o futebol ainda está nas repetições.


julho 10, 2006

Visual

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Já para não falar dos estrábicos e dos duros de roer.


We Look at Each Other...
Markus Muntean & Adi Rosenblum
[acrylic on canvas, 2002]


julho 09, 2006

Perdidos

A esta hora, gostaria de estar refastelado no sofá a ver uma série e a comer um gelado com caramelo. Mas a nossa RTP, que não achou suficientemente importante transmitir os jogos de Portugal no Mundial mas enviou um batalhão de jornalistas, técnicos e afins para a Alemanha, está há várias horas em emissão especial para acompanhar a chegada da "equipa de todos nós" a Portugal.

Tudo bem, eles merecem um aplauso pelo 4º lugar. Mas ter dezenas de repórteres nas ruas, a entrevistar a sogra do Ricardo, uma freira cujo jogador preferido "são todos", vários "populares" e um bando de "crianças sempre entusiamadas", a pedir aos jogadores algumas palavras para lhes perguntar exactamente o mesmo que das últimas 17 vezes, não será demais?!


julho 04, 2006

As assassinas

Enquanto o futebol evoluí, no essencial, Portugal continua a recuar.


junho 28, 2006

Saudade



Vejo-te só, quente, mergulhada em cores, que frio fiquei eu,
cinzento.

Sensuality
Pino Daeni [gicleé on canvas]


junho 16, 2006

Sem ponteiros

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Para onde os teus sonhos me trazem!...

The Lady of Shallott
John William Waterhouse [oil on canvas, 1888]


junho 10, 2006

Apanhar o comboio das estrelas

Vou a caminho de mim e de tudo o que vem.

Adonis [poeta árabe]


junho 05, 2006

Pontes

Visita Guiada

Para ir acompanhando.


Escapadela

Ah, seja como for, seja para onde for, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar,
Ir para longe, ir para fora, para a Distância Abstrata,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!

Todo o meu sangue raiva por asas!
Todo o meu corpo atira-se prá frente!
Galgo pla minha imaginação fora em torrentes!
Atropelo-me, rujo, precipito-me!...
Estoiram em espuma as minhas ânsias

E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!

Ode marítima [excerto] - Álvaro de Campos


junho 01, 2006

Molhar os pezinhos


Ai, as saudades que eu tinha da Época Balnear!

High Tide
Winslow Homer - 1870 [oil on canvas]


maio 27, 2006

moleirinha

Sou um homem alto que às vezes pensa coisas estranhas, como por exemplo que o seu cocuruto toca o tecto. Sou um homem pouco instruído mas que sabe pensar por si próprio. Sou alguém que há cinquenta anos sonha que vive num hotel onde nunca pagou a conta, por conhecer uma rampa secreta junto ao monta-cargas que não funciona. Sou alguém que se escapa muitas noites por essa rampa. Alguém que agora procura um atalho para fugir da situação que o prende e não quer pagar as despesas do triste hotel da sua vida. Alguém que cada dia que passa tem mais medo de observar como lentamente apodrece o seu mundo. Sou um monte de trapos velhos, apenas sei que me chamo Federico. Mas, agora que penso, que estranho chamar-me Federico.

Enrique Vila-Matas, A Viagem Vertical [Assírio & Alvim, 1999]


maio 15, 2006

o Sonho


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Agarra o lusco-fusco que nos protege...

Estrela da Tarde
Franz Von Stuck [1912]


maio 09, 2006

A Escolha

Fugido de casa, Jacó procurou refúgio em casa do tio Labão, um latifundiário de Aran, na Caldeia. O conceito de amor à primeira vista é escasso para descrever o que sentiu quando viu a filha mais nova. Parecia incrível que, após uma busca tão longa e uma viagem tão grande, fosse uma prima quem lhe cativasse os sentidos, mas Jacó não tinha dúvidas de se tratar da mais bela visão que os seus trinta e poucos anos experimentavam.
Pediu Raquel em casamento, sem hesitar, e Labão cedeu-lha, sem reflectir. Mas num arrependimento súbito, o tio entendeu que não podia dar a mão da filha assim, sem mais. Não a de Raquel, dádiva dos céus.
Disse então a Jacó que casaria com a prima se trabalhasse para ele durante sete anos, sem receber regalias. Jacó não tinha alternativa e cedeu: fez pastoreio ao gado do tio, dois mil quinhentos e cinquenta e seis dias seguidos, sem receber um centavo de vencimento.
Na verdade, foram sete anos felizes para Jacó, na expectativa que, findo o prazo, teria Raquel nos braços. E o tempo passou, como se não quisesse, até que o dia chegou e os preparativos para o casamento começaram.
Temendo que Labão voltasse a quebrar a promessa recorrendo a um qualquer golpe baixo, Raquel e Jacó encontraram-se atrás de um poço e combinaram que sinais ela faria, debaixo dos trajes de noiva, para que ele a reconhecesse.
E o velho tentou mesmo: em vez de Raquel, ornamentou e escondeu pela penumbra do véu, a irmã mais velha - Lia. Avisado, Jacó não seria enganado, mas Raquel não teve coragem. Não suportou imaginar a irmã ser alvo de humilhação pública e da chacota permanente que a impediria de casar, ficando a única detentora da ira do pai. Mostrou-lhe os sinais secretos e permitiu que consumasse o casamento com o amado. De manhã, quando percebeu a troca, Jacó nada podia fazer.
E esperou mais sete anos para casar com Raquel.


maio 01, 2006

Trabalhador

Uma manifestação de trabalhadores cuja farda eram calções floridos e t-shirts vermelhas, fez com que o trânsito fosse cortado na Avenida da Igreja, na do Brasil, na Rio de Janeiro, na de Roma e em todas as ruas circundantes.

Sem alternativa, tentei atropelar o maior número possível. Por manifesto azar e confessa imprecisão, o máximo que consegui foi esborrachar um gelado na cara de um obeso anafado e derrubar dois pinos cor-de-laranja, enquanto um polícia cantava de apito.

E cá estou eu a trabalhar.


abril 27, 2006

Primavera, juventude do ano

Como é bela a primavera. As florzinhas, as abelhinhas, os passarinhos. E as mulheres?

  The Quiet Man, John Ford [1952]

Parece que ganham outra graça. Descobrem mais um pouco de pele e as minhas hormonas entram num frenesim alucinante. Sim, eu sei que é tudo um truque para eu tentar espalhar os meus genes por aí.


abril 26, 2006

Capitão Haddock

Mille millions de mille sabords!  

Flibusteiros, marinheiros de água doce, mercenários, açambarcadores, judas, renegados, esquizofrénicos, rizópodos, ectoplasmas, emplastros, trogloditas, aztecas, sapos do deserto, vendedores de tapetes, iconoclastas, zulos, parasitas, bexigosos, sacripantas, esclavagistas, tecnocratas, vegetarianos, quadrúpedes, corsários, hidrocarbonetos, canacas, giroscópios, doríferos, zuavos, antropopitecos, anacolutos, invertebrados, tocadores de gaita-de-foles, bichos-de-conta, velho pepino, sinapismo, escolopendras, velho cachalote, coleópteros, atarracados, anacoretas, bichas-solitárias, piróforos, colocíntidas, zigomicetes, gargarejos, cataplasma, saguins, espécie de iconoclasta míope, fanfarrão de orquestra, cretino dos Alpes, equinodermes, fagote de Madagáscar, galináceos, espécie de babuínos, cercopitecos, velhacos feitos de extracto de cretino, turcos, saltimbancos amestrados, espécie de analfabeto diplomado, bacalhau atlético, zebróide, protozoários, lagarto desmontável, bando de zapotecas, patagónios, micróbio ornitorrinco, espécie de logarítmo, ratos neurasténicos, ciclotrão, pepino em conserva, pedaço de morcego, cabeça de martelo, emplastro em banha de ouriço, concentrado de mexilhão bexigoso, viviseccionistas, torcionários, antropófagos, astronauta de água-doce, espécie de selvagem interplanetário, subproduto de ectoplasma, bugre subnutrido, cretino dos Balcãs, autodidactas, bugre de creme de emplastro à base de idiotice, polígrafos, bazucas dos Cárpatos, selvagens preparados com molho tártaro, incendiários, fenómeno de canibal, anticristo, barroco, coloquinta, visigodos, pedaços de energúmenos com nariz de coco, espécie de equilibrista, cretinos do Himalaia, espécie de Cró-Magnon, mamelucos, macrocéfalos, rocambole, filoxera, pterodáctilo, sátrapa, espécie de lobisomem com gordura de ranúnculo, velha coruja enferrujada, oficlídio, espécie de diplodocus escapado directamente da pré-história. 

Cornichons Diplomés, voilá ce que vous êtes! Bande d’urluberlus ! Sous-produit d’ectoplasme! Bougre de Papou des Carpathes! Brutes! Flibustiers! Moules à gaufres! Ecraseurs! Autodidactes! Bachibouzouks!

[Hergé e João Pedro George 
com pilação da Inês]


abril 20, 2006

Dança



Esta Noite, vai Chover...

Ballerina II
Joan Miró [1925]


abril 12, 2006

the green menace

E não se pode exterminá-los?!


abril 10, 2006

Bruxa


oprime la imagen para endrominar

Serei o teu saco de água quente, o cubo de gelo na tua boca.

Danae
Gustav Klimt - 1907
[oil on canvas]


abril 07, 2006

Escura, escura é a noite

Cair na noite. [...] Como se fosse um abismo sobre o qual nos precipitamos. E à medida que caímos vamos vendo todas as camadas da crosta deste estranho universo, até chegarmos ao núcleo líquido, cheio de inebriantes vapores tóxicos.

pare    escute     sinta

Vemos-nos por aí uma destas noites numa qualquer espelunca aperaltada.


março 21, 2006

Equinócio à chuva


Não fiques tonta,
 deixa-me arranhar-te enquanto sussurro disparates...

Danse à Bougival
Pierre-Auguste Renoir - 1883
Oil on canvas


março 16, 2006

Boliqueimes

Mas o Sol já se foi?!


Não me digas que o Cavaco apareceu à janela na marquise...


março 13, 2006

E depois torcer um pé...

Publicidade russa. Campanha e autoria desconhecida.


março 03, 2006

Gripe Cerebral

Notícia de abertura do Jornal da Tarde da RTP 1 [parece que é feito no Porto, mas isso não é desculpa]:
- é uma situação normal, mas apareceram nove pássaros mortos na praia da Torreira, em Ovar... e a zona está interdita!
Depois de explicar que tanto autoridades como ambientalistas considerarem que se trata de algo absolutamente natural, tanto nesta época do ano como naquela zona, o pivot, sempre em tom grave e asustado, chama em directo uma repórter de cabelos ao vento, na dita fatídica praia [fatídica para os sete gansos patola, coitadinhos, não para a repórter, coitadinha].
- é uma situação perfeitamente normal, lembro que há milhares de análises feitas, todos os dias, a pássaros que aparecem mortos... Mas a praia chegou a estar interditada para se fazer a recolha das amostras.

A repórter volta ao pivot, que repete o que ela disse, por outras palavras, num tom agora menos grave, mas pouco. Entretanto, passaram vários minutos e já há pretexto para se falar de mais um caso de H5 não sei onde, e percorrer os países que já confirmaram gripe aviária. O tom grave voltou a subir de tom, sempre acompanhado de um semblante carregado.

Depois admiram-se que a RTP tenha ultrapassado a SIC nas audiências. A TVI não tarda muito...


fevereiro 03, 2006

CodSex

José Rodrigues dos Santos e Maria de Lurdes Modesto publicam livro de receitas com leite de mamas.

Vítor Elias/ António Marques - in o Inimigo Público


janeiro 11, 2006

Cartazes adúlteros

Os teus amigos andam muito sofisticados disse-me o Nuno, ao telefone, espantado com um cartaz da campanha de Mário Soares que tinha lá outro gajo qualquer que não era ele, mas numa montagem muito bem feita.

Mas desta vez não foram as mui amigas deste blog Brigadas Posterrroristas 5/12 a patrocinar a alteração. Foi mesmo a campanha oficial do ex-Presidente que decidiu colocar figuras como Fernando Nobre, Rosa Mota ou Francis Obikwelu a apelar ao voto.

Se fossem as Brigadas, respondi eu ao decepcionado Nuno, estaria lá a Soraia Chaves, com os trajes de O Crime do Padre Amaro versão SIC.


dezembro 30, 2005

Desforra

Trata-se simplesmente do meu quarto, só a cor se encarregará de tudo, dando, pela sua significação, um estilo mais significativo às coisas, ser sugestiva aqui do repouso ou do sono em geral. Enfim, a visão do quadro deve repousar a cabeça, melhor dizendo, a imaginação.
As paredes são de um vileta-pálido. O chão é de ladrilhos vermelhos.
A madeira da cama e as cadeiras são amarelo de manteiga fresca, o lençol e as almofadas verde-limão muito claro.
A colcha vermelho-escarlate. A janela verde.
A mesa de toilette laranja; a bacia azul.
As portas lilaz.
E é tudo - nada neste quarto está na penumbra.
O volume dos móveis deve mais uma vez expressar um repouso inabalável. Os retratos na parede e um espelho e uma toalha e algumas roupas.
A moldura - como não há branco no quadro - será branca.
Isso para tirar a minha desforra do repouso forçado a que fui obrigado.

Vincent Van Gogh, sobre O Quarto em Arles, em 1889


dezembro 17, 2005

'Os Caricaturistas Nocturnos'
BP 5/12 na Grande Reportagem

O último número da Grande Reportagem, ilustrada na capa pela modelo/actriz Soraia Chaves, traz a primeira entrevista às Brigadas Posterrroristas 5/12. Em quatro páginas ilustradas pelo fotógrafo Pedro Loureiro, o jornalista Samuel Alemão acompanha uma acção do grupo e faz um pequeno estorial, respeitando o anonimato dos elementos - tudo gente bem na vida que não sabe o que fazer às noites.


Sem que ninguém lhes faça a encomenda, um grupo de indivíduos bem instalados na vida decide sair para o frio da noite e sabotar os painéis de propaganda eleitoral e camarária de Lisboa. Gente na casa dos quarenta, já com filhos e algum tempo livre, dedica-se a realizar operações de subversão gráfica, parodiando todo o espectro político. As Braigadas Pós-Terroristas 5/12 completam um ano de vida e dizem-se inspiradas por Santana Lopes. «Não queremos impor nada. Os cartazes é que estão lá e pedem para ser utlizados. Chamam por nós.»


Disponível hoje com o Diário de Notícias e com o Jornal de Notícias. Não há que enganar, é a que tem a Soraia Chaves na capa.


dezembro 15, 2005

Pesadelo Erótico



Calca para Ampliar
Eine Kleine Nachtmusik
Dorothea Tanning [oil on canvas, 1943]



dezembro 05, 2005

BP 5/12: um ano de Acção

Três cidadãos notáveis passam por um placard vazio da Câmara de Lisboa e exclamam: Olha! Podíamos fazer ali um cartaz. quando passam de carro. Ao jantar, trocam ideias sobre o 'projecto' e chegam a um slogan engraçado. Alguém comenta: Se tivéssemos menos vinte anos...

Foi assim que, há um ano atrás, demos início neste blog ao relato das acções das auto-denominadas Brigadas Posterrroristas 5/12. Tudo começou por impulso, quase por acaso, mas ganhou proporções inesperadas e uma notoriedade tremenda, que deu azo a imitações, plágios e até pressões políticas.

Aqui ficam enumeradas todas as acções e reacções deste movimento artístico-revolucionário - as Brigadas Posterrroristas:


  1. O Cartaz esquecido

  2. Manual de Instruções

  3. Nasceu um Movimento

  4. Carta ao Rei de Espanha

  5. Polícia de Plantão

  6. Plágio no Público

  7. O Público erra

  8. Primeira acção dissidente

  9. Carmona envenenado?!

  10. O Público volta a plagiar

  11. O Público despede plagiadora

  12. Feliz Natália

  13. Mas foi a plagiadora errada

  14. Provedor do leitor apoia plágio

  15. Menino Guelleilo

  16. Rato Mickey

  17. Intenção de Voto

  18. Previsão Eleitoral

  19. Operação Flaua Paua

  20. Já Reparou que está frio comó... ?

  21. Temos grande líder

  22. Santana Rebela-se

  23. Ritual santânico

  24. A Lata Continua

  25. Nem o Papa escapa

  26. Arranca a Campanha

  27. Votem em Nós

  28. Arte por Encomenda


Venha a próxima.




novembro 30, 2005

Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasito,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe —todos eles príncipes— na vida...

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Poema em Linha Recta [extractos], Álvaro de Campos


novembro 26, 2005

Arte por Encomenda

Desta vez a missão era diferente. Marcava-se o arranque da campanha para a Presidenciais de forma simbólica e sob o olhar atento de uma equipa de reportagem. Um jornalista e um fotógrafo fizeram perguntas e apontaram num bloco quem são as Brigadas, o que querem dizer, porque começaram, o que as move. E decidiram acompanhar uma acção das ditas.

O relógio marcava 8 graus e 2:34 da manhã. Mas este grupo já enfrentou, com estes capuzes ou outros, a noite mais fria dos últimos cinquenta anos. Uma vez que a coisa era simbólica e fotografada, esmiuçada ao pormenor, decidiu esgotar-se o stock. Cartazes antigos das autárquicas, slogans nunca ousados, ideias soltas. Tudo debaixo do braço, junto ao habitual alguidar de cola, aos três rolos extensíveis, ao cordel e ao canivete.

Tal como da última vez, um polícia mais atento forçou a debandada. Um dos rolos ficou para trás. A descontração foi suficiente, no entanto, para que, na primeira curva, o reizinho saísse do carro para libertar micções incómodas. Curiosamente, junto à sede do Departamento de Higiene da Câmara Muncipal de Lisboa. Curiosamente, não... Simbolicamente!

Depois Saldanha, onde se utilizou um novo suporte - a paragem de autocarro e, finalmente, Entrecampos. Missão cumprida que se faz manhã. O jornalista que escreva a história, o fotógrafo que revele as imagens exclusivas.

A caminho de casa, todos se indagavam sobre o significado profundo daquele T, na testa do candidato.


novembro 24, 2005

Dois em Um

Vê se distingues... Arte ou Pornografia?


novembro 18, 2005

Copo de Água




Se isto não der, pelo menos, 100 libras, pá... passo a pintar nus.



Tempestade de Neve no Mar, J.M.W. Turner
[ óleo sobre tela - 1842, National Gallery ]

Quando este quadro foi exibido na Royal Academy, os críticos não o compreenderam e chegaram a troçar dele, dizendo que fora "feito com água de sabão" ou "creme de chocolate, gema de ovo e groselha". O pintor reagiu com mágoa e respondeu "Não sei como eles pensam que seja o mar. Quem dera que lá tivessem estado...".

[Para pintar a tela, Turner pediu aos marinheiros do Ariel para o amarrarem ao mastro do navio, de modo a poder observar o vórtice de uma tempestade].


novembro 08, 2005

Procura

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem.

Hora Absurda, Fernando Pessoa


outubro 26, 2005

Bunda Mole

Cristina acordou às seis, arrumou as crianças, levou-as para o colégio e voltou para casa a tempo de dar um beijo burocrático em Artur, o marido, e de trocarem cheques, afazeres e reclamações.
Fez um supermercado rápido, brigou com a empregada que manchou seu vestido de seda, saiu como sempre apressada, levou uma multa por estar dirigindo com o celular no ouvido e uma advertência por estacionar em lugar proibido, enquanto ia, por um minuto, ao caixa automático tirar dinheiro.
No caminho do trabalho batucava ansiedade no volante, num congestionamento monstro, e pensava quando teria tempo de fazer a unha e pintar o cabelo antes que se transformasse numa mulher grisalha. Chegando ao escritório, quase foi atropelada por uma gata escultural que, segundo soube, era a nova contratada da empresa para o cargo que ela, fez de tudo para pegar, mas que, apesar do currículo excelente e de seus anos de experiência e dedicação, não conseguiu.
Pensou se abdômen definido contaria ponto, mas logo esqueceu a gata, porque no meio de uma reunião ligaram do colégio de Clarinha, sua filha mais nova, dizendo que ela estava com dor de ouvido e febre.
Tentou em vão achar o marido e, como não conseguiu, resolveu ela mesma ir até o colégio, depois do encontro com o novo cliente, que se revelou um chato, neurótico, desconfiado e com quem teria que lidar nos próximos meses.
Saiu esbaforida e encontrou seu carro com pneu furado. Pensou em tudo que ainda ia ter que fazer antes de fechar os olhos e sonhar com um mundo melhor. Abandonou a droga do carro avariado, pegou um táxi e as crianças.
Quando chegou em casa, descobriu que tinha deixado a porra da pasta com o relatório que precisava ler para o dia seguinte no escritório.
Telefonou para o celular do marido com a esperança que ele pudesse pegar os malditos papéis na empresa, mas a bosta continuava fora de área.
Conseguiu, depois de vários telefonemas, que um motoboy lhe trouxesse a porra dos documentos.
Tomou uma merda de banho, deu a droga do jantar para as
crianças, fez a porcaria dos deveres com os dispersos e botou os monstros para dormir.
Artur chegou puto de uma reunião em São Paulo, reclamando de tudo.
Jantaram em silêncio.
Na cama ela leu metade do relatório e começou a cabecear de sono. Artur a acordou com tesão, a fim de jogo. Como aqueles momentos estavam cada vez mais raros no casamento deles, ela resolveu fazer um último esforço de reportagem e transar. Deram uma meio rápida, meio mais ou menos, e, quando estava quase pegando no sono de novo, sentiu uma apalpadinha no seu traseiro com o seguinte comentário:
- Tá ficando com a bundinha mole, Cristina... deixa de preguiça e começa a se cuidar.
Cristina olhou para o abajur de metal e se imaginou martelando a cabeça de Artur até ver seus miolos espalhados pelo travesseiro! Depois se viu pulando sobre o tórax dele até quebrar todas as costelas! Com um alicate de unha arrancou um a um todos os seus dentes depois deu-lhe um chute tão brutal no saco, que voou espermatozóide para todos os lados!
Em seguida usou a técnica que aprendeu num livro de auto-ajuda: como controlar as emoções negativas.
Respirou três vezes profundamente, mentalizando a cor azul, e ponderou. Não ia valer a pena, não estamos nos EUA, não conseguiria uma advogada feminista caríssima que fizesse sua defesa alegando que assassinou o marido cega de tensão pré-menstrual...
Resolveu agir com sabedoria.
No dia seguinte, não levou as crianças ao colégio, não fez um supermercado rápido, nem brigou com a empregada. Foi para uma academia e malhou duas horas. De lá foi para o cabeleireiro pintar os cabelos de caju e as unhas de vermelho.
Ligou para o cliente novo insuportável e disse tudo que achava dele, da mulher dele e do projeto dele. E aguardou os resultados da sua péssima conduta, fazendo uma massagem estética que jura eliminar, em dez sessões, a gordura localizada.
Enquanto se hospedava num spa, ouviu o marido desesperado tentar localizá-la pelo celular e descobrir por que ela havia sumido. Pacientemente não atendeu.
E, como vingança é um prato que se come frio, mandou um recado lacônico para a caixa postal dele.
- A bunda ainda está mole. Só volto quando estiver dura.
Um beijo da preguiçosa...

Esse sexo é feminino, Patrícia Travasso

Posta da Inês4Jazz


outubro 21, 2005

Isso, ou Sorte

Não tenho uma ideia muito romântica da vida, não acho que seja cor de rosa. Pelo contrário - acho que todas as coisas boas advêm de grandes momentos de catarse ou de sacrifícios.

David Fonseca, ao jornal Blitz


outubro 18, 2005

Lua Desarrumada


Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.

São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.

E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.

E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.

Grito, David Mourão Ferreira


outubro 11, 2005

Saber Viver II


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse Sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse Sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o Sábado

Construção, Chico Buarque


Porque o melhor deste blog está nos comentários. Bem hajas, Inês4jazz.


setembro 20, 2005

Nem o Tempo que Passa

A memória é o nosso local de exílio, o que resta da desilusão e do sonho, daquilo que não fizemos, do que se perdeu no caminho.

Luís Naves, Os Reis da Peluda [Campo das Letras - 2002]


setembro 18, 2005

Vingança

Calca para Ampliar
Judite degola Holofernes
Artemísia Gentileschi [1612 - óleo sobre tela]


setembro 14, 2005

Morrer com Estilo

No More Games. No More Bombs.
No More Walking. No More Fun.
No More Swimming.
67. That is 17 years past 50.
17 more than I needed or wanted.
Boring. I am always bitchy.
No Fun -- for anybody.
67. You are getting Greedy.
Act your old age.
Relax -- This won't hurt.

Football Season is Over - Nota de Suicídio de Hunter S. Thompson


A 20 de Agosto, tal como pedira, os restos mortais do escritor americano foram disparados de um canhão de 150 pés, ao som de Mr. Tambourine Man - de Bob Dylan. O actor Johnny Depp, admirador da obra de Thompson e seu amigo, ajudou a família a satisfazer esse desejo.


agosto 29, 2005

In the Mood

Akinori Oishi
Micro Films


agosto 28, 2005


oprime la imagen
O Beijo - Gustav Klimt, 1908 [oil and gold on canvas]


agosto 20, 2005

Exclamação

!

Experimenta falar pela minha boca,
assoar-te pelo meu nariz...



Divertimento com sinais ortográficos, Alexandre O'Neill


agosto 17, 2005

A tua Boca

Apenas uma boca A tua Boca
Apenas outra, a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca

Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.

Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca

Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca.

David Mourão Ferreira, A Boca as Bocas


julho 25, 2005

A Vida É Fodida

«Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas e cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas, já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. o amor é um estado de quem se sente. o amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita não faz mal. Que se invente e minta e sonho o que quiser. O amor é uma coisa a vida é outra.
A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
»

Miguel Esteves Cardoso, Elogio ao Amor [extractos]

MEC, o pai de todos os blogues, faz hoje anos. Cinquenta, se não me engano.


julho 14, 2005

Ingenuidade

Eu tinha vinte e poucos anos e, para mim, dizer que o amor se reduz a uma linguagem de pele e o sexo a uma simples terminologia era quase um sacrilégio. Tinha a idade em que o amor, seja lá o que isso vier a ser, é o valor supremo de um horizonte onde só se divisa a felicidade. [...]
Com o tempo, descobri que esse horizonte, se existe, é eternamente móvel e que, além disso, quando a vista vai fraquejando, a sua perspectiva se torna cada vez mais remota.

António Mega Ferreira, Amor [ed. Assírio & Alvim - 2002]


julho 05, 2005

Mudar o Mar


Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.


[Sophia de Mello Breyner Andresen - Bebido o Luar]


julho 01, 2005

'Votem em Mim'
A Campanha arrancou

Calca para Ampliar. Retroceder para Voltar

Desde a Primavera que andava intrigada com este brotar de cartazes Lisboa fora. Grandes e pequenos. Os primeiros, com a cara, laroca é verdade, de um dos famosos, diziam que ele tinha projectos com princípio meio e fim. E que se chamava Manuel Maria Carrilho. Projectos para quê???

Depois a moda pegou. Quanto mais avançava a Primavera, mais cartazes brotavam. Era um vê se te avias, nem se via mais nada em Lisboa. Um senhor chamado Ruben de Carvalho aparecia com Soluções para Lisboa. Seria isto publicidade a uma loção capilar?

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E logo outro, cheio de nomes e a cara do senhor José Sá Fernandes, “Lisboa também é Gente”, “não é de betão”. Dava-nos este senhor a cara, assim no papelão por todo o lado, para tapar o betão com gente? Lisboa não são cartazes!

Finalmente, o Presidente da Câmara de Lisboa, homem alto, aparecia rodeado de gente de muitas cores com o nome dele escrito por baixo. E mais nada.


Diacho… que se andaria a passar??? Que moda mais estranha…

Vieram os Santos e eles sempre lá, cada esquina, cada avenida, cada jardim, um manjerico destes. Porquê? Lisboa assim enfeitada… Coitadita. Nem se deu pelas marchas.

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“Pois tu não percebes mulher, que isto é uma campanha para as eleições autárquicas que hão-de vir, passado o Verão, lá para o Outono? Que estes senhores querem ser presidentes?”

“Homessa?!? Mas eles não dizem lá isso!”

“É que não podem. Era o que faltava poderem estar em campanha este tempo todo. Mas se não disserem lá os seus verdadeiros intentos, já podem pôr quantos cartazes quiserem.”

“Mas então eles estão a enganar-nos assim? Então vão andar nisto até às vindimas?”

“É política mulher. Isto é só ter dinheiro para pagar e saber dar a volta às leis. Vale tudo.”

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“Não me parece nada certo. Enganar assim o povo, quer ele queira quer não. Cartazes por todo o lado, Lisboa toda às três pancadas e eles nisto, ainda a dar mais cabo dela. E para nada. Se o que querem é votos para serem presidentes, que o dissessem!”

“Não podem, mulher! Tu não entendes, é proibido!”

Ah! E a gente é palhaços, é? E vão ficar ali a rir de nós até às vindimas?”

Posta da Fada


junho 30, 2005

'Votem em Mim'

A última acção das Brigadas Posterrroristas 5/12, esta madrugada, vai ser notada por toda a cidade de Lisboa, aos primeiros engarrafamentos.

Munidos de capa azul do Optimus Open Air e chapéu encarnado da RFM, quatro brigadeiros deixaram marca indelével em 30 cartazes dos candidatos a autarca que começaram a campanha antes do tempo. A ideia é forçar a remoção dos mesmos e deixar Lisboa respirar o Verão.

A foto-reportagem estará neste blog assim que for possível recuperar da audição de Zorba - o grego, saída de um qualquer auto-rádio, noite dentro.


junho 11, 2005

Girassol Azul


1. como o moscardo distingue o girassol,
.....assim eu distingo cada cadeira em que estiveste sentada.

2. meter-te a língua e respirar fundo
.....como o pisco faz com o girassol.

3. só de imaginar a polpa do girassol,
.....há uma cabeça que chora de alegria.


de Alberto Pimenta, in As religiões do Girassol [Assírio & Alvim]


junho 08, 2005

A elegância do Elefante que dança



[Gregory Colburn]


maio 13, 2005

Cova da Iria

De repente, chega o nevoeiro. Ainda é Verão, mas dir-se-ia uma madrugada de Janeiro, coberta de nuvens que escorrem pelo cabeço abaixo como leite frio. Tudo zumbe à volta deles: em cada oliveira pode bem estar escondido um cortiço de abelhas enfurecidas. Só as ovelhas estão silenciosas, miram-se umas às outras sem um movimento. "Têm medo", pensa Francisco. Ele também tem medo, nunca viu uma névoa assim, tão opaca e pesada, tão perto de o afogar. Quando os alcança, parece um cobertor de papa, escuro, gordo, pegajoso.

A brisa súbita solta protestos dos ramos à volta e molha as crianças com um frio que as magoa até aos ossos. A pouca roupa que trazem não os pode proteger de tal regelo.

"Está tão frio", grita Francisco.

A Lúcia responde-lhe lá de longe, meio escondida pela bruma:

"Vamos abrigar-nos na loca!"

Correm os três para a pequena caverna junto ao alto do monte. Não chegam a entrar; o zéfiro muda de rumo e ganha força, sopra do topo do cabeço, empurra-os para longe da abertura da rocha. O vendaval endemoninha o nevoeiro, em rodopio à frente deles, misturado com folhas arrancadas às oliveiras e poeira do chão ainda seco. Agora, sim, as ovelhas soltam balidos aflitos, como se a pressentir lobo.

Mas já não é apenas o ar que se contorce. No centro do turbilhão há um clarão, cada vez mais reluzente, um farol furando a névoa de dia de naufrágio. Não; é também mais do que luz. Ali está alguém coberto com um lençol, a bailar com o vento, envolto no brilho do seu próprio fulgor. Devagar, muito devagar, aquilo pára e desce ao chão.

A Lúcia vira-se para Francisco e diz:

"Não tenhas medo, é o mesmo Anjo que eu vi no outro dia, quando estava com a Teresa e com os outros. Estás a ver como era verdade?"

Quando o lençol se agita ao vento, Francisco vê um pouco do rosto do Anjo. E vê uma máquina, os dentes cruéis de uma debulhadora mordendo-se sem cessar. Vê agora uma chapa lisa, depois um enxame de engrenagens, dentes mecânicos a girar uns contra os outros no relógio da igreja. E agora de novo a debulhadora, de alguma forma a olhar para eles e a parecer querer falar.

Francisco apenas ouve o chio das portas velhas, um guincho que lhe ergue os pequenos pêlos dos braços em arrepio de ver defuntos. Ele arrisca e reza um Pai Nosso, olhos bem fechados e mãos enclavinhadas uma na outra até que as palmas lhe doem. Nada quer ouvir; mesmo assim, as palavras começam a chegar-lhe, roufenhas, incompreensíveis. Parecem algo que já ouviu na missa:
"ex unitate et intellectu et anima mundi vita in naturam venit, quia natura est deus revelatus et dea revelata."

Jacinta está de joelhos e pose de prece, não ousa levantar-se para encarar o Anjo. A Lúcia aproxima-se dele sem receio, com um sorriso quase desafiador.

"Porque estão com medo? Não vêem como ele é bonito? É o Anjo da Paz... e veio só para falar connosco!"

Francisco deseja fugir, mas as pernas amolecem, o corpo rebela-se num quebranto doente.

"Não gosto dele, Lúcia! Diz-lhe para se ir embora!"

Ele continua às cegas, sem que isso chegue para o embotar à lengalenga do Anjo:

"...et anima mundi vita in naturam venit, quia natura est deus revelatus..."

"Mas tu queres ir para o Inferno? Então ofendes assim o Anjo da Paz?" a Lúcia, brilhando também ela à luz do Anjo. "Ele trouxe o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, para nós comungarmos. Cheguem-se a mim."

Francisco força-se a olhar de novo. O Anjo estica um braço; da sua ponta não surge uma mão, só um esguicho contínuo de sangue e pedaços de carne, caindo para a terra já empapada. Lúcia leva àquela fonte as duas mãos em concha. A submissa Jacinta aguarda a sua vez. O rapaz não quer ver o rosto encarniçado de Lúcia, o sangue que lhe escorre pelo pescoço. Mas ouve-a bem:

"É o corpo e o sangue de Jesus Cristo, e maldito sejas tu se o recusares!"

Aos gritos de Francisco, responde o uivo de um cão perdido na lonjura.

[O Último Segredo de Fátima, de Luís de Castro - Má Criação]


maio 11, 2005

Nobre [corruptos são os outros]

Depois das suspeitas levantadas por uma investigação policial, só resta um caminho a Luis Nobre Guedes. Ser candidato a uma Câmara Municipal.

Mas Oeiras, Gondomar e Leiria já têm vencedor encontrado.

Talvez... Coimbra?!


abril 20, 2005

BP 5/12 sobre Ratzinger

As Brigadas Posterrroristas 5/12 comentam desta forma, em cartaz colocado no Marquês de Pombal, a eleição de um cardeal alemão para suceder ao polaco João Paulo II.

Mais logo, a reportagem completa de mais uma acção cívica.


abril 19, 2005

Alerta

Um paralelipípedo de granito embrulhado em papel higiénico irrompeu, há instantes, pelo vidro da janela e rebolou pelo chão de tacos envernizados da sala até derrubar a estatueta de pau preto gentilmente pousada junto ao peciché. A redacção do blogue acaba de ser notificada que as Brigadas Posterrroristas 5/12 saem da hibernação seca, esta madrugada.

A lata continua!


abril 17, 2005

Nascer da Pedra

Desconhecia o trabalho de José Eduardo, mas a obra saltou-me à vista, assim que cheguei à Feira de Arte do Estoril.

Junto à entrada do Centro de Congressos, ali ao lado do Casino, um homem auto-esculpia-se de uma coluna de mármore. E a ideia ganha força, porque há restos de mármore espalhados pelo chão e uma coluna tombada ao lado e partida em duas.

Na exposição, o escultor de Mafra mostra outras peças igualmente interessantes, como aquela em que uma mulher procura abrir, por dentro, uma mola de roupa gigante, ou outra de um sol que grita, e a de um violino tapado por um lençol.

E ao contrário do que acontece com muitos dos artistas plásicos portugueses, mesmo com os mais consagrados, este 'desconhecido' José Eduardo tem um site oficial.

E as obras têm preços mais acessíveis, naturalmente.


abril 14, 2005

março 16, 2005

O homem-cacto não pode amar?


Untitled [cactus date] - Daren Rabinovitch


março 13, 2005

Proibido

Marithé et François Girbaud


março 11, 2005

Brigadas reivindicam manif

«Camaradas,
aqui vão alguns pensamentos socráticos que me ocorreram a propósito da nossa platónica filmage:

Ponderei, ponderei, e cheguei à conclusão, em relação à primeira parte semifusa da Monstruosa Manif de Apoio ao Regresso do Desejado (MMARD), seguida de um psicogótico Ritual Santânico com a oração adequada e, à falta de velhinhas laranja, duas velinhas vermelhas, as quais não foram objecto de reportagem fílmica porque dois profissionais televisivos se sentiram incomodados pela nossa reclamação de legítimo anonimato (legítimo dado que não estávamos a difamar ninguém nem a passar informação que pudesse lesar primeiros, segundos ou terceiros), do seguinte:

Acho que nos estamos A PASSAR.


Os argumentos dos galhardos repórter e câmara não eram válidos, mas ainda bem que não filmaram - a piada era limitada e não merecia um telejornal. Mas foram pouco profissionais: não aproveitaram para sacar imagens que depois poderiam usar ou não usar. E ainda bem que o não foram porque, não gostando, não seriam "objectivos", ou por outra seriam o que os media sempre são, só que desta vez contra o que estávamos a fazer e não, como tantas outras, a favor. É de morrer a rir ouvir um operador de câmara e um jovem repórter televisivo dizerem que não podem (sic) fazer compromissos ou entrar em cumplicidade com os sujeitos (ou objectos, ou abjectos...) da notícia: quando insistem, encorajam, sorriem, mostram apreço, focam, desfocam, o que estão a fazer? Focar é também desfocar, qualquer profissional da informação deve saber isso. Se não o sabe, está morto, pelo menos de espírito.

O ARTESANAL da coisa é a própria piada da coisa e o risco da coisa. Há algo de primário e louco nestas "acções", que são delirantes a mais de um nível. Cabe a quem trata a notícia ou a quem vê passar para um ou para outro lado. A rapariga que quer tirar uma foto vê vida, os que cospem para o lado vêem miséria. Vida ou miséria, em ambas as reacções - embora opostas - há a percepção do absurdo. Absurdo: algo que não faz sentido, algo que deve ser muito parecido com morte cerebral (e já é a segunda vez que falo nisto).
A nossa desculpa é que o antídoto para o veneno é o próprio veneno.

E mais um ABSURDO: os profissionais ofendem-se ("Isso agora ofende-me", sic do câmara) quando alguém lhes observa que, ao contrário de nós, eles são pagos? Então ser pago não é uma das primeiras (senão a primeira) característica de um profissional? A par da competência técnica, naturalmente. Mas um profissional que não é pago revela já alguma incompetência técnica. Está a quebrar um princípio inerente à função, o de que é um trabalho de qualidade e, como tal, é pago. Só faz sentido se for pago.

Nós, em contrapartida, somos amadores. Fazemos aquilo porque nos apetece, porque "nos dá na bolha", e não nos sentimos, por isso, obrigados a apresentar um trabalho de qualidade. Pode até ser MAU, mas também não é remunerado. A cada um o seu aneurisma conforme as suas necessidades. É gratuito, em todos os sentidos da palavra. E é estúpido a maior parte das vezes. Mas não é inconsequente.

Não, têm razão, é também inconsequente. Prontos, satisfeitos?

Velho do Restelo [a.k.a Santanete Bêta]
pelas Brigadas Posterrrrrroristas 5/12 »


março 10, 2005

A Lata continua, Carmona pá Rua!

Um grupo de Santanetes manifestou-se hoje pelo regresso de Pedro Santana Lopes à Câmara de Lisboa.

De luto e mascaradas, as Santanetes organizaram um ritual Santânico em que submeteram a voodoo um boneco de Carmona Rodrigues e rezaram a Santana [a força desta novena é comprovada pelo facto de ter começado a chuviscar de imediato].

A primeira parte da manif decorreu, naturalmente, junto à casa de Monsanto - residência oficial do edil lisboeta.

Por esta altura, dois funcionários de imagem de uma televisão, com câmara ao colo [expressão sem segundas intenções], recusaram fazer a reportagem do acontecimento, porque exigiam que as Santanetes se identificassem. Como se uma Santanete fosse qualquer outra coisa.

O Substrato agradeceu o exclusivo.

Depois de se manifestarem junto à própria Câmara Municipal, e na Praça do Comércio, as Santanetes seguiram, em silêncio, pela Rua Augusta abaixo, até ao Rossio.

A dada altura, os curiosos identificaram-se com as reivindicações e centenas de lisboetas anónimos entoaram palavras de ordem como: Ó Carmona, larga o osso! ou Lisboa reclama, Pedro pá Câma!

Algo nos diz que as Brigadas Posterrroristas 5/12 estão por trás disto.


março 04, 2005

Santana imita Brigadas Posterrroristas 5/12

Desesperado e ignorado pelos mesmos media que o veneravam [falamos da revista Caras, do pasquim 24 Horas e do catálogo Lux], Santana Lopes decidiu fazer-se ouvir através de... placards clandestinos.

A primeira mensagem que encontrámos, perto do seu mui querido há-de ser túnel, é dirigida a Carmona Rodrigues, pouco disposto a deixar a Câmara Municipal de Lisboa e único poiso capaz de acolher o ex-Primeiro-ministro na incubadora.


Personagens do Shrek 5/12

Calca para Ampliar [e conseguir ver o Marques Mendes]

As Brigadas Posterrroristas 5/12 continuam a aposta no 'seu' candidato.


março 02, 2005

Coude neime: Flaua Paua

Desta havia reforços garantidos. Sangue novo, fresquinho, brigadeiros meninos dispostos a aliviar a sexta missão das brigadas. [apesar de, diga-se a verdade, os jovens voluntários terem requerido confirmação da acção durante a tarde, que o frio, que o vento…]

Confesso que me mantivera mal informada ao longo do dia e apenas sabia que tinha de ter tinta, cola, o chão da sala desimpedido e atenção à campainha a partir das dez e meia da noite. E, foi quando entendi a extensão da sexta missão, que a premonição me assaltou: desta vez haveria cinco cartazes de uma só vez? Ena! Desta vez haveria sangue! Desta vez haveria flores, muitas flores e só flores a encher o Areeiro? Quase cinco metros de papel cenário? Homessa! Desta vez superávamo-nos!

Só flores?!? Flores porquê? Ainda queríamos fazer flores? Ainda o Insone não chegara e já as frases germinavam no lugar das flores. A primeira, Que bem se está sem governo, nasceu sem dores, plácida e posta a secar no quarto ao lado. Cumpria-se o horário, havia sangria e Ferry para acompanhar, do Insone uma mensagem sucinta que o dizia a caminho, e o Velho de Restelo aceitou enfrentar o esboço da primeira flor. A negro. E que lhe passássemos o vermelho logo de seguida para as pétalas.

Quando um homem dá uma ordem uma mulher obedece. Que eu abanara a lata do vermelho abanara, que a deixara com a tampa apenas pousada à espera da trincha, deixara, que ninguém reparou, ninguém reparou, que uma lata de tinta energicamente abanada uma segunda vez por um homem, sem tampa, produz um resultado impressionante sobre uma sala geralmente branca, produz.

Era o sangue da minha premonição - o verdadeiro mar de sangue sobre telemóveis, máquinas digitais, comandos de televisão, DVDs, sofás, puffs, paredes, portas, chão, e gente com camisolas de lã, casacos, calças e sapatos - no preciso momento em que o Insone chegava, seguido de perto da operadora de câmara, de mais uma brigadeira menina, e… do Velho do Restelo ainda alheio aos acontecimentos, ainda de gatas, ainda de trincha na mão, contemplando a sua flor, à espera do vermelho para as pétalas.

A frase seguinte brotava naturalmente: Eleissões Já!

Uma hora depois de muitos baldes de sangue terem sido retirados dos telemóveis, máquinas digitais, comandos de televisão, DVDs, sofás, puffs, paredes, portas, chão, e gente com camisolas de lã, casacos, calças e sapatos, enfrentámos os 50 graus negativos de Lisboa.

E, despistada a carrinha da Câmara que nos seguiu até à Praça Francisco Sá Carneiro, descobriu-se o vento. Glaciar.

O treino de acção em rotundas nacionais perante o habitual débito de automobilistas indiferentes ao nosso bando garantia a nossa desenvoltura. Impressionámos os brigadeiros meninos com a comprovação do facto: ninguém estranha, ninguém pára, ninguém questiona. Nenhum português é um polícia, e nenhum polícia é português às duas da manhã sob um vento glaciar numa rotunda de Lisboa. O senão desta acção, o valente contratempo, terá sido mesmo o vento.

Ou não, já que cada corrida de um lado para o outro da rotunda de seis embarretados atrás de cartazes esvoaçantes e registada pela fervorosa operadora de câmara, passou despercebida aos sete carros da recolha do lixo lisboeta que se cruzaram com os vultos embarretados, em corrida atrás de cartazes voaçantes.

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Que bem se está sem governo. Às duas e meia da madrugada passou o táxi que a operadora de câmara esperava e cumpriu-se a sexta missão das Brigadas Posterrrrrrroristas 5/12 e seus brigadeiros meninos.

Mas… Sobravam pedacitos de papel. E um cartaz camarário que dizia, as coisas no lugar certo. E que se decidira em reunião de câmara fazer já nem me lembro o quê. Parque Mayer? Um casino? Um Silo? Bah! Em dois segundos arrumámos a história.

Que bem se está com a casa arrumada. Flaua Paua

[Postalhito de Fada - elemento feminino das BP 5/12]


março 01, 2005

BP 5/12: operação Flower Power

Placard de propaganda na Praça Francisco Sá Carneiro, Lisboa

Este é o culminar de uma noite de peripécias, de uma operação gelada, das Brigadas Posterrroristas 5/12 reforçadas.

E que bem estiveram esta madrugada, com uma produção total de quatro cartazes e o 'melhoramento' de outros dois, em plena Praça do Areeiro.

O relato pormenorizado, incluindo as partes do banho de tinta vermelha, do cerco movido pelos carros do lixo e da luta desigual contra o vento glaciar, estará no blog assim que a ressaca desaparecer. Com imagens de todos os placards colocados, bem enquadrados com o degolado Sá Carneiro.


fevereiro 20, 2005

Sondagem à boca das urnas [pelas BP 5/12]

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fevereiro 17, 2005

Brigadas lançam Repto

Dia de Lota Nacional: Eu Veto Bronco

Ter-me-ei tornado um Dissidente?

O documento que as Brigadas Posterrroristas 5/12 me mandaram foi ligeiramente alterado em Photoshop [nota-se pelas subtis imperfeições, da minha responsabilidade].

Assim, este passa a ser um jovial manifesto contra a abstenção, contra o luto em que mergulhámos, contra o bronco que nos governa.


fevereiro 14, 2005

Aproveitar os Laranjas desocupados

Sendo que o mais provável é que o nosso Primeiro-ministro regresse a presidente da CML por alguns meses, e com o seu 'amor' a Lisboa, deveríamos começar a lançar sugestões capazes de lhe fazer luzir o olho e inofensivas para a cidade.

Não vá o diabo tecê-las.

Calca para ver mais

Esta, parece-me contemplar todos os requisitos!

[Postalhito da autoria de fada - elemento feminino das Brigadas Posterrrroristas 5/12]


fevereiro 13, 2005

rrrrrrrrrrrrr...

«Esta era fácil. Quase batota, abastardamento total das brigadas. Qual tinta, fixador, secador, esperas com barretes enfiados por horas mortas da madrugada. Por €60.00 tínhamos um cartaz verdadeiramente profissional, produzido à medida do nosso placard pessoal, um direito adquirido das brigadas ao longo de uma semana de campanha honrosa do herói bebé, batida mano a mano com os adversários profissionais na rotunda mais cobiçada do País.
Agora, qualquer meia hora de ida, colagem e regresso, resolvia a história. Faltava marcar a hora.
O insone ainda refilou mas o velho do Restelo tinha de se despachar para dormir que tinha um voo às sete da manhã. Onze horas, marcou-se.
Cola feita, meio pacote bastava, arrancámos. Não sem eu ter de ouvir os homens comentar a tontice feminina que me levava a ter ocupado o carro com o velho apanhador de nêsperas. Desta vez um simples rolo bastava, porra! E onde estava o CD do Team America? Team America é que devia ser o nosso hino!

Eu sei que eu sabia.
O nosso herói tinha voado e ali estávamos nós de Mickey enrolado numa mão, apanhador de nêsperas na outra, alguidar de cola aos pés e o Marquês em animação de onze da noite de sexta feira, a debitar quatro autocarros, vinte táxis, trinta veículos privados, duas ambulâncias e meia dúzia de autoridades por voltinha.
"Estamos loucos?"
"Estamos."
"Algum de nós é reconhecível?"

Investigámos cada canto da rotunda. Considerámos cada cartaz da oposição: Colar sobre o PC? Era injusto. Ligar para o Bloco? Perguntar se se chateavam? Era mais justo. Mas era noite de Bairro Alto. Enfrentar o PP? Era in. Mas simples demais. O PSD? Esse não era partido. Colar sobre o PS? Ninguém tinha os óculos, todos os cartazes nos pareciam do PS.
O velho do restelo queria ir para casa e despachar a coisa.
"Pegamos já neste."
"Pegamos???"
Pegámos. Mesmo. Porque desta vez éramos quatro e, ali aos nossos pés, abandonado entre as ervas, jazia abandonado um heróico placard de ferro (oitenta quilos??) com três metros por dois e meio, vá, estacas e tudo.
E onde se espetava? Por junto tínhamos um canivete, mais outro canivete, uma faca de lançamento, e um escopro retorcido da semana anterior.
Logo se via. Para já colava-se assim mesmo com ele no chão. Tarefa fácil.

Colagem feita faltou só o mais simples: atravessar o marquês, com oitenta quilos de placard entre o débito de quatro autocarros, vinte táxis, trinta veículos privados, duas ambulâncias e meia dúzia de autoridades por voltinha, com os reconhecíveis a olhar para o umbigo e finalmente amarrar o abandonado a um ombro amigo.

Há pouco ainda lá estava. Mais um herói. Um guerreirito de chumbo.
Não me perguntem pelos três errs da assinatura, nem se somos os dissidentes, os não dissidentes ou os originais. Mas que deu jeito o apanhador de nêsperas deu.

Fada,
pelas brigadas posterrrroristas 5/12»


Domingo em Carcavelos

Está uma tarde perfeita para um passeio até à praia.

Em Carcavelos, esta tarde, há uma onda humana que visa sensibilizar a opinião pública para a morte de uma das melhores praias de Surf da Europa.

A Câmara de Cascais anunciou uma intervenção que prevê a construção de pontais que vão eliminar as ondas. O mar de Carcavelos é conhecido pela regularidade da sua rebentação e funcionam naquela praia quatro escolas de Surf, que aproveitam essas condições ideais.

Portugal tem uma óptima costa, com praias de diversas condições de mar, que poderiam, facilmente, ser transformadas em 'mecas' do Surf. Mas em vez de se construírem recifes artificiais, por exemplo, nada se faz nesse sentido. E numa altura em que aumentam os praticantes e a qualidade dos surfistas rofissionais, as autoridades intervêm para destruir as condições das praias.

Mais uma vez, Portugal mostra que anda para trás, em questões ambientais [sim, também é disso que estamos a falar].

Não deixes que te atirem areia para os olhos. Vêmo-nos daqui a nada, em Carcavelos.


fevereiro 12, 2005

Brigadas Dissidentes atacam?!

Alguém retirou [cobardemente?] o cartaz das Brigadas Posterroristas 5/12 do posto que esse herói bebé guardava estoicamente no Largo do Marquês do Pombal, em Lisboa.

Coincidência ou talvez não, surgiu no mesmo local novo cartaz, que – pela qualidade da impressão, e pelo facto mesmo de o dito ser impresso e não manufacturado – se supõe ter sido produzido e realizado por uma facção dissidente das ditas Brigadas Posterroristas.

Seria a mesma? Ou outra?

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[Uma pista: a palavra "posterrorista" surge escrita com três, e não com dois rr.]

Nota do blogger: foi postada na íntegra a mensagem anónima enviada para o e-mail do |Substrato| que dava conta deste 'incidente'.


fevereiro 05, 2005

Socorro! As BP - 5/12 estão de volta...

As Bigadas Postellolistas 5/12 leivindicam caltaz no Malquês de Pombal.

Não confundir com o placal do Menino Guelleilo.

Calca para ampliar e iluminar

«Dormi todo o dia... a idade já não nos perdoa e foi uma missão dura. Um dos elementos precisou mesmo de dormir uma boa hora no colo do sofá, enquanto os outros dois se debatiam com a pintura.
Afinal, fora ele o elemento a transportá-lo aos ombros (dois por um de contraplacado e respectivas estacas deixaram-no K.O.) a pé, ao longo de vários quarteirões e ainda escadas acima até ao lar escolhido para a fase da pintura.
Mas, às duas da manhã, depois de encontrados os óculos de ver ao pé do dono da casa (desta vez seria preciso apertar parafusos, escavar a terra para espetar as estacas) e recolhidos escopro e maço de outro lar, conseguiu-se chegar ao Marquês.

O elemento semi adormecido estava velho do Restelo com alguma razão: estávamos mal preparados para esta acção. Não é fácil escavar buracos na Rotunda do Marquês sem dar com o metro. Há mesmo mais quem ande a tentar, há largos meses, com o mesmo problema.
Mas com jeito, ao fim de uma hora (muito acontece no Marquês pela calada da noite e partilhámos a rotunda com um carro da polícia vazio, dois senhores do departamento de recolha de lixo da CML, um taxista e um condutor que se acidentaram ao nosso lado, o que fez chegar mais um veículo da brigada de trânsito, desta vez com ocupantes) tínhamos dois buracos para as estacas e, com a ajuda de algumas pedras de cantaria já retiradas pelos escavadores anteriores, conseguimos firmar as estacas.

Entretanto, reconheça-se a boa índole do povo português, e a generalidade dos funcionários públicos nacionais, forças de autoridade, etc., ninguém nos interpelou, ninguém estranhou que dois homens e uma mulher embarretados andassem a escavar o Marquês ou a espetar estacas.
Prosseguimos pois, com o içar do próprio placard e ao aparafusamento do mesmo, e às primeiras fotografias feitas a partir da faixa de rodagem. O único perigo que corremos, de facto, foi o de sermos atropelados.

Mas já não temos idade para isto. Foi essa a conclusão a que chegámos.

Com alguma tristeza, reconhecemos e decidimos que queremos mesmo passar este testemunho aos jovens que nos têm apoiado aqui neste blog.
Por favor, eram quase cinco da manhã quando regressámos às nossas casas, onde temos filhos, gatos, obrigações familiares para cumprir, gente que amamos.
Estamos frágeis, precisamos de remansos, desejamos colo. Não queremos castrar os vossos sonhos, mas isto mata-nos. A barra deste tempo não pode continuar nos nossos ombros. Este tempo não é nosso.

Brigadeiros meninos, chegou o vosso tempo.

Pelas Brigadas Posterroristas 5/12,
Fada»




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